Uma conversa com meus filhos me fez reencontrar uma criança apaixonada por HQ's: eu mesmo.
Quando criança, entre as mil profissões que sonhava em seguir, uma das que mais me encantava — apesar do pouco talento no traço — era a de criar histórias em quadrinhos.
Crescendo na década de 1990, não tinha acesso fácil a HQs. Minha principal fonte eram os gibis usados vendidos em bancas de feira e tirinhas de jornais. Mesmo desejando ter revistas de super-heróis, acabava me contentando (com prazer!) com edições da Turma da Mônica, Zé Carioca e Pato Donald — este último, aliás, meu personagem favorito. Cheguei a ter uma orgulhosa coleção de 35 gibis do Donald, hoje compartilhada com meus pequenos.
Lembro que mantinha um caderno com recortes de tirinhas de jornais, que reencontrei anos depois na casa da minha mãe, empoeirado, mas cheio de memórias e inspiração.
Como alternativa às revistas que não podia ter, criava muitos dos meus próprios gibis. Inventava personagens, vilões, apetrechos e enredos. Passava tardes inteiras desenhando e escrevendo histórias, que me empolgavam. Até comecei a colecionar essas criações, embora elas não tenham resistido ao tempo.
Lembro que a minha bisavó, com quem tive o privilégio de conviver, achava curioso que parte dos trocados que eu ganhava com parentes fosse direto para o “fundo de produção” das minhas HQs. Às vezes, ao invés de comprar um lanche, eu investia em lápis, papel e tempo criativo.
Meu traço, confesso, era limitado. Talvez por isso, eu raramente dava continuidade aos mesmos personagens, preferindo começar novas aventuras a todo momento.
Com o tempo, as coisas mudaram. Vi crianças da década de 2010 crescerem com a possibilidade de criar HQs digitais: sites que oferecem personagens prontos, balões de fala, fontes diversas e até opção de imprimir a tirinha finalizada. Confesso que cheguei a sentir uma pontinha de inveja desta facilidade. Certa vez, inclusive, um professor na universidade, ao saber do meu antigo hobby, contou que seu filho fazia tirinhas digitais e até as vendia para os colegas na escola.
Avançando para os dias de hoje, durante as férias escolares dos meus filhos, conversando com o mais velho — Pedro, de 10 anos — ele me perguntou se eu já tinha pensado em fazer historinhas, usando o que ele chamou de “talento para criar histórias”, que costumam entreter ele e o irmão Bernardo, de 2 anos.
Aquela conversa ficou na minha mente. Por dias, rascunhei ideias de roteiros simples, tentando imaginar algo que os dois pudessem curtir. Mas as férias passaram rápido. O projeto em conjunto acabou indo para a gaveta, aguardando a próxima temporada de folga.
Porém, a semente ficou plantada.
Resolvi então dar início a uma nova iniciativa no meu projeto jornalístico autoral, algo que me reconectasse com as minhas origens no jornalismo esportivo: tirinhas com mascotes dos clubes pernambucanos que disputam os campeonatos nacionais. Nesta primeira fase, o foco será em cinco equipes: Sport, Náutico, Santa Cruz, Retrô e Central.
Nasce assim a “Resenha dos Mascotes” — um exercício de criatividade que mistura memória afetiva, paternidade, jornalismo, futebol e novas tecnologias. Estou usando a inteligência artificial para me auxiliar na criação dos personagens e espero que este projeto ganhe vida longa.
Mais que um projeto, é um reencontro.
Uma forma de honrar aquela criança que sonhava em criar gibis — e hoje pode ver esses sonhos se realizarem, com a parceria de seus filhos e a ajuda de ferramentas que antes só existiam na imaginação.