quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

De prancheta na mão, tornei-me meu próprio técnico

Peço licença ao leitor para a publicação de uma crônica que há algumas semanas seu tema me martelava a mente e sua estrutura escorreu no papel nas últimas madrugadas.  

Existe uma época do ano em que a nostalgia me alcança com mais força. Diferentemente da maioria das pessoas, que se comove no apagar das luzes de dezembro, eu sinto esse impacto no primeiro trimestre e ele tem sido mais intenso desde que passei dos 30.

Há um senso comum que diz que, quando somos muito jovens, não sabemos aproveitar plenamente as oportunidades profissionais que surgem. No meu caso, isso não foi apenas teoria.

Dizem que a juventude entra em campo com muito fôlego e pouca leitura tática, no meu caso, isso aconteceu. Vivendo o jornalismo esportivo, é normal ver jogadores que trabalham em times de menor expressão, que quando são contratados para um time dito grande, seja no seu estado ou região, não sabem aproveitar a oportunidade e acabam virando uma eterna promessa.

Aos 21 anos, em Cajazeiras, no sertão paraibano,
a tecnologia da época não permitia
melhores registros de celular (Acervo Pessoal)
Na primeira semana de janeiro, recebi uma dessas notificações de redes sociais que insistem em nos lembrar do que fomos. Há 14 anos, eu iniciava uma curta passagem pelo departamento de esportes de uma extinta emissora de rádio AM da cidade de Campina Grande. O rádio em amplitude modulada praticamente perdeu seu espaço, 96% das emissoras desta faixa migraram para o FM, talvez, se eu tivesse vislumbrado essa mudança, tivesse vivido aquele momento com outra consciência.

Aos 21 anos, cheguei com sonhos maiores do que a estrutura que eu possuía. Sabia que tinha potencial, mas ele não foi explorado. A rádio pouco oferecia, e a equipe da época fez questão de limitar as possibilidades. Imaginava trabalhar na Copa do Mundo que aconteceria dois anos depois no Brasil, mas minha base ainda era frágil, técnica e emocionalmente. Estar cercado por profissionais pouco comprometidos também não contribuiu para que aquela experiência florescesse.

Não foi um auge. Mas poderia ter sido um salto.

Limitei-me a cumprir funções, quando poderia ter tensionado limites e ido além do protocolo, faltou ousadia.

O "lugar comum" que me permitiu e ao mesmo tempo foi um
limitador do meu crescimento profissional, registro de 2011
 (Foto: Anderson Melo) 
Estar fora de casa, cobrindo times de futebol sem o rótulo de “o sobrinho de” ou “o filho de”, trouxe um peso inédito à minha profissão. Pela primeira vez, eu era apenas um jornalista, sem sobrenomes que amortecessem expectativas ou acobertassem falhas. Encarei aquilo de maneira digna, mas a certeza de que poderia voltar para casa, se algo desse errado, criou uma zona de conforto invisível. E zonas de conforto são silenciosamente perigosas.

Ao fim daquela experiência, em que algumas possibilidades me foram efetivamente tolhidas, desenvolvi uma aversão ao nicho. Afastei-me do jornalismo esportivo como quem evita um lugar que traz lembranças ambíguas.

Entre 2013 e 2015, enfim a liberdade editorial em uma
grande praça (Foto: Hiran Barbosa)
Essa resistência só seria superada no final de 2013, por meio de uma ligação que me colocou imediatamente em outra emissora, de proporção distinta. Ali, consegui explorar melhor minhas capacidades. Tive programa próprio em horário nobre. Permaneci por mais dois anos. Saí por decisão pessoal, numa tentativa deliberada de abandonar o jornalismo esportivo.

Voltei quase dez anos depois. E, no retorno, percebi que havia desperdiçado anos que poderiam ter me projetado mais longe.

2026, em novas plataformas com a mesma vontade de aprender do
início da minha trajetória (Foto: Heitor Cumaru) 
Ainda assim, há algo que me tranquiliza: muitos profissionais consolidaram suas trajetórias na faixa etária em que me encontro agora. E o que me move é saber que não perdi o apetite pelo aprendizado. A maturidade que me faltava aos 21 hoje se traduz em disciplina, estudo e disposição para fazer melhor.

Talvez o maior erro da juventude não seja errar, mas acreditar que sempre haverá tempo suficiente para corrigir.

Um comentário:

  1. Assim como em outras profissões, precisamos fazer dar certo. Às vezes, o centro no qual estamos inseridos não ajuda. Principalmente, quando o assunto é futebol. O jeito é começar no torneio de área e seguir rumo a Tóquio. Rompendo as fronteiras das quatro linhas imaginárias, bem antes do apito final. Abraço, amigo MIRO.

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